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3 de out. de 2011

O duelo musical entre Noel Rosa e Wilson Batista



POLÊMICA - NOEL ROSA/WILSON BATISTA

01. Lenço no pescoço
02. Rapaz folgado
03. Mocinho da Vila
04. Palpite infeliz
05. Feitiço da Vila
06. Conversa fiada
07. João Ninguém
08. Frankenstein
09. Eu vou pra Vila
10. Terra de cego
11. Vitória
12. Meu mundo é hoje

* Roberto Paiva canta as canções de Wilson Batista e Francisco Egydio de Noel Rosa.

* Desenho da capa feito pelo caricaturista, jornalista e compositor Antonio Nássara.

Tudo começou quando em 1933, Wilson Batista lançou a musica “Lenço no Pescoço”, onde proclamava seu orgulho em ser vadio e associava a imagem do sambista à malandragem.

Lenço no Pescoço
Wilson Batista
Meu chapéu do lado
Tamanco arrastando
Lenço no pescoço
Navalha no bolso
Eu passo gingando
Provoco e desafio
Eu tenho orgulho
Em ser tão vadio

Sei que eles falam
Deste meu proceder
Eu vejo quem trabalha
Andar no miserê
Eu sou vadio
Porque tive inclinação
Eu me lembro, era criança
Tirava samba-canção
Comigo não
Eu quero ver quem tem razão

E eles tocam
E você canta
E eu não dou

Noel Rosa se sentiu incomodado com a associação e mandou logo uma resposta bem direta, compondo “Rapaz Folgado”. Na letra, Noel não deixa margem sobre suas intenções...

Rapaz Folgado
Noel Rosa
Deixa de arrastar o teu tamanco
Pois tamanco nunca foi sandália
E tira do pescoço o lenço branco
Compra sapato e gravata
Joga fora esta navalha que te atrapalha

Com chapéu do lado deste rata
Da polícia quero que escapes
Fazendo um samba-canção
Já te dei papel e lápis
Arranja um amor e um violão

Malandro é palavra derrotista
Que só serve pra tirar
Todo o valor do sambista
Proponho ao povo civilizado
Não te chamar de malandro
E sim de rapaz folgado

Wilson Batista sentiu-se ofendido pelo golpe inesperado e reagiu com o samba “Mocinho da Vila”. “Se não quiser perder/Cuide do seu microfone e deixe/Quem é malandro em paz...”

Mocinho da Vila
Wilson Batista
Você que é mocinho da Vila
Fala muito em violão, barracão e outros fricotes mais
Se não quiser perder
Cuide do seu microfone e deixe
Quem é malandro em paz
Injusto é seu comentário
Falar de malandro quem é otário
Mas malandro não se faz
Eu de lenço no pescoço desacato e também tenho o meu cartaz

A elegante resposta veio com “Feitiço da Vila”, parceria com o pianista Vadico.

Feitiço da Vila
Noel Rosa
Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos,
Do arvoredo e faz a lua,
Nascer mais cedo.

Lá, em Vila Isabel,
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba.
São Paulo dá café,
Minas dá leite,
E a Vila Isabel dá samba.

A vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo nome de princesa
Transformou o samba
Num feitiço descente
Que prende a gente

O sol da Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora:
"Sol, pelo amor de Deus,
não vem agora
que as morenas
vão logo embora

Eu sei tudo o que faço
sei por onde passo
paixao nao me aniquila
Mas, tenho que dizer,
modéstia à parte,
meus senhores,
Eu sou da Vila!

Wilson Batista achou que o canto de amor á Vila Isabel era uma fuga da briga e satisfeito com a notoriedade alcançada pela mesma, voltou ao ataque com “Conversa Fiada”

Conversa fiada
Wilson Batista

É conversa fiada dizerem que o samba na Vila tem feitiço
Eu fui ver para crer e não vi nada disso
A Vila é tranqüila porém eu vos digo: cuidado!
Antes de irem dormir dêm duas voltas no cadeado
Eu fui à Vila ver o arvoredo se mexer e conhecer o berço dos folgados
A lua essa noite demorou tanto
Assassinaram o samba
Veio daí o meu pranto

Mexer com a Vila Isabel de Noel Rosa foi o erro fatal de Wilson Batista e motivo de glória para o cancioneiro nacional.
Isso proporcionou a composição de uma das maiores obras-primas do nosso samba: “Palpite Infeliz”.
O adversário de Noel é claramente desacreditado pela pergunta: “Quem é você, que não sabe o que diz?”

Palpite Infeliz
Noel Rosa
Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do Céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila Não quer abafar ninguém,
Só quer mostrar que faz samba também

Fazer poema lá na Vila é um brinquedo
Ao som do samba dança até o arvoredo
Eu já chamei você pra ver
Você não viu porque não quis
Quem é você que não sabe o que diz?

A Vila é uma cidade independente
Que tira samba mas não quer tirar patente
Pra que ligar a quem não sabe
Aonde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?
Não entendendo a elegância de Noel, neste momento o compositor Wilson Batista perde a linha e parte de vez para o ataque com a canção “Frankenstein da Vila”, que não chegou nem perto de desbancar o poeta maior de Vila Isabel.

Frankenstein da Vila
Wilson Batista
Boa impressão nunca se tem
Quando se encontra um certo alguém
Que até parece um Frankenstein
Mas como diz o rifão: por uma cara feia perde-se um bom coração
Entre os feios és o primeiro da fila
Todos reconhecem lá na Vila
Essa indireta é contigo
E depois não vá dizer
Que eu não sei o que digo
Sou teu amigo

Apesar da violência da resposta, o próprio Wilson Batista se confessou arrependido, anos mais tarde, por ter se aproveitado do complexo de feiúra de Noel Rosa.
A disputa ainda rendeu algumas replicas:

João Ninguém
Noel Rosa
João Ninguém
Que não é velho nem moço
Come bastante no almoço
Pra se esquecer do jantar...
Num vão de escada
Fez a sua moradia
Sem pensar na gritaria
Que vem do primeiro andar

João Ninguém
Não trabalha e é dos tais
Mas joga sem ter vintém
E fuma Liberty Ovais
Esse João nunca se expôs ao perigo
Nunca teve um inimigo
Nunca teve opinião

João Ninguém
Não tem ideal na vida
Além de casa e comida
Tem seus amores também
E muita gente que ostenta luxo e vaidade
Não goza a felicidade
Que goza João Ninguém!

João Ninguém não trabalha um só minuto
E vive sem ter vintém
E anda a fumar charuto
Esse João nunca se expôs ao perigo
Nunca teve um inimigo
Nunca teve opinião

Wilson por sua vez lançou “Terra de Cego”. 

Terra de Cego
Wilson Batista
Perde a mania de bamba
Todos sabem qual é
O teu diploma no samba.
És o abafa da Vila, eu bem sei,
Mas na terra de cego
Quem tem um olho é rei.
Pra não terminar a discussão
Não deves apelar
Para um barulho na mão.
Em versos podes bem desabafar
Pois não fica bonito
Um bacharel brigar.

A contenda já dava mostras de não possuir mais a mesma intensidade de antes, os dois compositores já estavam virando mesmo amigos.
Pouco tempo depois, em 1937, morreu o jovem Noel Rosa, aos 26 anos, mas antes compôs junto com o antigo rival.
Quem saiu ganhando neste duelo foi a Música Popular Brasileira.

Vitória
Nonô, Noel Rosa
Antes da vitória,
não se deve cantar glória
Você criou fama,
deitou-se na cama...
Eu que não estou dormindo
Vou subindo, vou subindo
enquanto você vai decaindo.
Antes da vitória,
não se deve cantar glória
Você criou fama,
deitou-se na cama...
Eu que não estou dormindo
Vou subindo, vou subindo
enquanto você vai decaindo.
Quero a minha independência,
E com jeito e paciência,
me preparo pro futuro.
Não garanto, nem duvido
Mas você tome sentido que entre nós o páreo é duro.
Agüentei muita indireta,
Mas andei na linha reta,
não maldigo a minha sorte.
Vou agindo com cadencia,
Sei que a minha independência há de ser a sua morte.
Antes da vitória,
não se deve cantar glória
Você criou fama,
deitou-se na cama...
Eu que não estou dormindo
Vou subindo, vou subindo
enquanto você vai decaindo.
Antes da vitória,
não se deve cantar glória
Você criou fama,
deitou-se na cama...
Eu que não estou dormindo
Vou subindo, vou subindo
enquanto você vai decaindo.
Sua voz, se alguém percebe,
Bem humilde lhe recebe
sua entrada ninguém ferra.
Você goza de ventura,
Mas quem voa em grande altura
Leva sempre grande queda.
Não tenho medo de grito
Sempre fiz papel bonito, o que eu falo é bem pensado.
Não aceito escaramuça
E que aceite a carapuça quem se sentir nele ingrato.

Eu Vou Pra Vila
Noel Rosa
Não tenho medo de bamba
Na roda de samba
Eu sou bacharel
(Sou bacharel)
Andando pela batucada
Onde eu vi gente levada
Foi lá em Vila Isabel...

Na Pavuna tem turuna
Na Gamboa gente boa
Eu vou pra Vila
Aonde o samba é da coroa.
Já saí de Piedade
Já mudei de Cascadura
Eu vou pra Vila
Pois quem é bom não se mistura

Quando eu me formei no samba
Recebi uma medalha
Eu vou pra Vila
Pro samba do chapéu de palha.
A polícia em toda a zona
Proibiu a batucada
Eu vou pra Vila
Onde a polícia é camarada.

Meu Mundo É Hoje
Wilson Batista
Eu sou assim
Quem quiser gostar de mim eu sou assim
Eu sou assim
Quem quiser gostar de mim eu sou assim

Meu mundo é hoje
Não existe amanhã pra mim
E sou assim
Assim morrerei um dia
Não levarei arrependimentos
Nem o peso da hipocrisia

Eu sou assim...

Meu mundo é hoje...

Tenho pena daqueles
Que se agacham até o chão
Enganando a si mesmos
Com dinheiro, posição
Nunca tomei parte
Desse enorme batalhão
Pois sei que além de flores
Nada mais vai no caixão

7 de set. de 2011

O X do Problema - Noel Rosa 1935



Em 1935 estava sendo montada uma revista chamada "Rio Foles" que em cada quadro trazia uma vedete do Rio de Janeiro cantando em homenagem a um bairro.
Para cantar em homenagem ao Estácio foi convidada uma jovem recém chegada do Sul do Brasil chamada Ema D'Ávila, que mais tarde ficaria muito conhecida como comediante.
A Ema D'Ávila não tinha uma música inédita pra lançar nessa revista e o Noel Rosa, que sempre foi  grande admirador da Turma e do estilo de samba do Estácio,  aceitou o desafio de fazer um samba um dia antes da estreia.
Ninguém botou muita fé, devido a proximidade da estréia da revista, mas na hora marcada chega Noel no teatro pega o violão,  pede desculpa dizendo que o samba não era grande coisa pois tinha sido feito de um dia pro outro, e apresenta essa obra prima:

O X do Problema
Noel Rosa
Nasci no Estácio
Eu fui educada na roda de bamba
Eu fui diplomada na escola de samba
Sou independente, conforme se vê
Nasci no Estácio
O samba é a corda e eu sou a caçamba
E não acredito que haja muamba
Que possa fazer gostar de você
Eu sou diretora da escola do Estácio de Sá
E felicidade maior neste mundo não há
Já fui convidada para ser estrela do nosso cinema
Ser estrela é bem fácil
Sair do Estácio é que é o X do problema
Você tem vontade
Que eu abandone o largo de Estácio
Pra ser a rainha de um grande palácio
E dar um banquete uma vez por semana
Nasci no Estácio
Não posso mudar minha massa de sangue
Você pode ver que palmeira do mangue
Não vive na areia de Copacabana.
Cristina Buarque e Henrique Cazes - 1995 - Vol  01  Sem Tostão...A Crise Não é Boato


Comentário:
Uma semana depois a Aracy de Almeida encontra com Noel Rosa num Bilhar na Rio Branco e lhe pediu um samba para gravar, Noel escreve a letra (O X do Problema) num maço de cigarros e entrega a Aracy.
Ela passou a vida inteira achando que o Noel tinha feito o samba para ela, mas na verdade tinha feito para a revista uma semana atrás.
Salve Noel Rosa. 
José Afonso Karibé

29 de jan. de 2011

História da MPB - Volume 01 - Noel Rosa - 1970


Primeiro filho de seu Manoel e dona Marta de Medeiros Rosa, Noel veio ao mundo em 11 de dezembro de 1910, no Rio de Janeiro, RJ, em parto difícil - para não perderem mãe e filho, os médicos usaram o fórceps para ajudar, o que acabou causando-lhe a lesão no queixo, que o acompanhou por toda a vida.

Franzino, Noel aprendeu a tocar bandolim com sua mãe - era quando se sentia mais importante, lá no Colégio São Bento. Sentava-se para tocar, e todos os meninos e meninas paravam para ouvi-lo extasiados. Com o tempo, adotou o instrumento que seu pai tocava, o violão.

Magro e debilitado desde muito cedo, dona Marta vivia preocupada com o filho, pedindo-lhe que não se demorasse na rua e que voltasse cedo para casa. Sabendo, certa vez, que Noel iria à uma festa em um sábado, escondeu todas as suas roupas. Quando seus amigos chegaram para apanhá-lo, Noel grita, de seu quarto: "Com que roupa?" - no mesmo instante a inspiração para seu primeiro grande sucesso, gravado para o carnaval de 1931, onde vendeu 15000 discos!

Foi para a faculdade de medicina - alegria na família - mas a única coisa que isso lhe rendeu foi o samba "Coração" - ainda assim com erros anatômicos. O Rio perdeu um médico, o Brasil ganhou um dos maiores sambistas de todos os tempos.

Genial, tirava até de brigas motivo de inspiração. Wilson Batista, outro grande sambista da época, havia composto um samba chamado "Lenço no Pescoço", um ode à malandragem, muito comum nos sambas da época. Noel, que nunca perdia a chance de brincar com um bom tema, escreveu em resposta "Rapaz Folgado" (Deixa de arrastar o seu tamanco / Que tamanco nunca foi sandália / Tira do pescoço o lenço branco / Compra sapato e gravata / Joga fora esta navalha que te atrapalha) . Wilson, irritado, compôs "O Mocinho da Vila, criticando o compositor e seu bairro. Noel respondeu novamente, com a fantástica "Feitiço da Vila". A briga já era um sucesso, todo mundo acompanhando. Wilson retorna com "Conversa Fiada" (É conversa fiada / Dizerem que os sambas / Na Vila têm feitiço) . Foi a deixa para Noel compor um dos seus mais famosos e cantados sambas, "Palpite Infeliz" . Wilson Batista, ao invés de reconhecer a derrota, fez o triste papel de compor "Frankstein da Vila" , sobre o defeito físico de Noel. Noel não respondeu. Wilson insistiu compondo "Terra de Cego". Noel encerra a polêmica usando a mesma melodia de Wilson nessa última música, compondo "Deixa de Ser Convencido"

Noel era tímido e recatado, tinha vergonha da marca que trazia no rosto, evitava comer em público por causa do defeito e só relaxava bebendo ou compondo. Sem dinheiro, vivia às custas de poucos trocados que recebia de suas composições e do auxílio de sua mãe. Mas tudo que ganhava era gasto com a boemia, com as mulheres e com a bebida. Isso acelerou um processo crônico pulmonar que acabou em tuberculose. Noel morreu no Rio de Janeiro, em 04 de maio de 1937, aos 26 anos, vitimado pela doença.
Carô Murgel

lado 1

01 - Último Desejo - Noel Rosa
Aracy de Almeida com Boêmios da Cidade.
02 - Três Apitos - Noel Rosa
Maria Bethânia com acompanhento de violão
03 - Dama do Cabaré - Noel Rosa
Orlando Silva com Regional
04 - Conversa de Botequim - Noel Rosa e Vadico
Martinho da Vila com Regional de Canhoto

lado 2
01 - Palpite Infeliz - Noel Rosa
Aracy de Almeida com Regional
02 - Quem Ri Melhor - Noel Rosa
Marília Baptista e Noel Rosa com Reis do Ritmo
03 - O Orvalho Vem Caindo - Noel rosa e Kid Pepe
Almirante com Diabos do Céu
04 - Com que Roupa? - Noel Rosa
Martinho da Vila com Regional de Canhoto